A CRIANÇA, A CASA E O VELHO
PARTE I
Os últimos raios de sol apagavam-se mergulhando o mundo novamente em total escuridão. Longe de casa, as crianças brincavam alheias ao fato de que em pouco tempo, não seriam capazes de enxergar o caminho de volta. Afinal os olhos humanos não se adaptam bem à pouca – ou quase nenhuma – luz. Mesmo assim, elas continuavam a brincar aproximando cada vez mais da borda da mata.
E não era uma floresta qualquer, era a mais temida de todas. A que escondia os mais temidos seres e criaturas. Ao menos era isso que diziam os adultos a respeito da Floresta das Cores.
E não era uma floresta qualquer, era a mais temida de todas. A que escondia os mais temidos seres e criaturas. Ao menos era isso que diziam os adultos a respeito da Floresta das Cores.
"Floresta das Cores"
Era o nome dado pelos antigos povos das Ilhas Imortais. Era formada por arvores de todos os tipos e formas. Frondosas, de mais de trinta metros de altura. E, obviamente, feita de muitas cores. As tonalidades das folhas variavam desde azul-safira, cor parecida a de uma gema mágica. Passando ainda por douradas, prateadas, esmeraldas, vermelhas, laranjas e até pretas. Estas, mais raras, e ao contrário do que se podia pensar, não indicavam estado de putrefação, mas sim a cor original das folhas. Eram ainda de um brilho lustroso difícil de se confundir com a opacidade característica da decomposição. A Floresta das Cores estendia-se ainda por quilômetros a perder de vista terminando aos pés das enormes montanhas dos Picos Gelados.
Próximo à borda da floresta fica o povoado de Nori. Tratava-se de uma pequena cidade de pouco mais de duzentos habitantes. Seus moradores contavam histórias a respeito de seres estranhos, perigosos e de natureza demoníaca que habitam as partes virgens da mata. E que vez ou outra, um viajante desavisado desaparecia.
Eles costumavam a alertar sobre os perigos desconhecidos que o lugar ocultava. Um deles chegou até a colocar uma placa no início da estrada que atravessava a Floresta das Cores, com dizeres nada encorajadores:
“Aos desavisados, cuidado! Seus pés na estrada, por todo o caminho, devem estar!”
Um alerta claro para aqueles que se arriscariam na travessia perigosa, para que jamais abandonassem a estrada. Do contrário somente os deuses saberiam o que poderia acontecer. Porém o aviso, nem sempre era o suficiente para salvar a vida de alguém. E muitas eram as histórias de pessoas que desaparecem após entrarem na mata.
O velho Tom observava impaciente o corre-corre incessante da molecada inquieta. Quando um deles se aproximou demais da fogueira, Tom não mais se conteve e pôs-se de pé de um salto, como se naquele momento a raiva anulasse os efeitos da idade avançada. Em seguida meteu os dedos indicadores de cada lado da boca esticando-a em uma careta estranha e produziu um alto e forte assobio. As crianças imediatamente pararam com a correria e voltaram seus olhos assustados na direção do velho.
— Venham cá todos vocês, seus diabretes! — disse Tom enquanto pegava um ou outro pela mão.— Não! — Retrucou João.— Calado! E faça o que estou mandando! Sente-se aqui agora!— Por quê?— Psit! Senta aí e fica de bico fechado. — Ordenou Tom.
As crianças fizeram o que o velho mandava mais por medo do que por curiosidade. Aliás o jeito como Tom as ordenara não deixava qualquer espaço para teimosia.
Até os adultos que estavam do outro lado da fogueira bebendo, comendo e conversando, pararam observar o que faria o velho Tom. E ao mesmo tempo estavam surpresos com a súbita obediência demonstrada pelas crianças.
— Fiquem calados todos vocês e apenas ouçam!
Era o nome dado pelos antigos povos das Ilhas Imortais. Era formada por arvores de todos os tipos e formas. Frondosas, de mais de trinta metros de altura. E, obviamente, feita de muitas cores. As tonalidades das folhas variavam desde azul-safira, cor parecida a de uma gema mágica. Passando ainda por douradas, prateadas, esmeraldas, vermelhas, laranjas e até pretas. Estas, mais raras, e ao contrário do que se podia pensar, não indicavam estado de putrefação, mas sim a cor original das folhas. Eram ainda de um brilho lustroso difícil de se confundir com a opacidade característica da decomposição. A Floresta das Cores estendia-se ainda por quilômetros a perder de vista terminando aos pés das enormes montanhas dos Picos Gelados.
Próximo à borda da floresta fica o povoado de Nori. Tratava-se de uma pequena cidade de pouco mais de duzentos habitantes. Seus moradores contavam histórias a respeito de seres estranhos, perigosos e de natureza demoníaca que habitam as partes virgens da mata. E que vez ou outra, um viajante desavisado desaparecia.
Eles costumavam a alertar sobre os perigos desconhecidos que o lugar ocultava. Um deles chegou até a colocar uma placa no início da estrada que atravessava a Floresta das Cores, com dizeres nada encorajadores:
“Aos desavisados, cuidado! Seus pés na estrada, por todo o caminho, devem estar!”
Um alerta claro para aqueles que se arriscariam na travessia perigosa, para que jamais abandonassem a estrada. Do contrário somente os deuses saberiam o que poderia acontecer. Porém o aviso, nem sempre era o suficiente para salvar a vida de alguém. E muitas eram as histórias de pessoas que desaparecem após entrarem na mata.
O velho Tom observava impaciente o corre-corre incessante da molecada inquieta. Quando um deles se aproximou demais da fogueira, Tom não mais se conteve e pôs-se de pé de um salto, como se naquele momento a raiva anulasse os efeitos da idade avançada. Em seguida meteu os dedos indicadores de cada lado da boca esticando-a em uma careta estranha e produziu um alto e forte assobio. As crianças imediatamente pararam com a correria e voltaram seus olhos assustados na direção do velho.
— Venham cá todos vocês, seus diabretes! — disse Tom enquanto pegava um ou outro pela mão.— Não! — Retrucou João.— Calado! E faça o que estou mandando! Sente-se aqui agora!— Por quê?— Psit! Senta aí e fica de bico fechado. — Ordenou Tom.
As crianças fizeram o que o velho mandava mais por medo do que por curiosidade. Aliás o jeito como Tom as ordenara não deixava qualquer espaço para teimosia.
Até os adultos que estavam do outro lado da fogueira bebendo, comendo e conversando, pararam observar o que faria o velho Tom. E ao mesmo tempo estavam surpresos com a súbita obediência demonstrada pelas crianças.
— Fiquem calados todos vocês e apenas ouçam!
—
Ouvir o que?
—
O silêncio que você insiste em quebrar, moleque atrevido! — E João ganhou um
cascudo na cabeça da mão grossa de Tom.
— Aí!
Essa doeu, seu velho fedido!
— Quer
levar outro, atrevido? Já disse para ficar quieto e prestar atenção.
João fez cara de raiva e ficou ali esfregando o
lugar onde fora atingindo pela pesada e grossa mão do velho.
Ficaram ali por mais alguns instantes em silêncio ouvindo o crepitar da
fogueira, o farfalhar das folhas reagindo a passagem do vento frio, o som dos
pássaros noturnos, e durante um tempo foi só o que se ouviu. Até que finalmente
um outro som, que não era o fogo, o do vento ou o dos animais comuns, fora
ouvido pela turma e seus olhos saltaram na direção do velho procurando explicação
a respeito daquele som gorgolejante vindo de dentro da floresta.
—
Vocês ouviram? — perguntou Tom e eles
apenas concordaram balançando suas cabeças assustadas.
—
O que foi aquilo, Sr. Tom?
—
Não sei! E acho que ninguém sabe. Mas não deve ser coisa boa. Não mesmo! Só
pode ter sido o que fez Jeremias desaparecer.
— Quem
era Jeremias? — perguntaram os pequenos.— Jeremias
era um bom homem — disse o velho com uma voz chorosa — trabalhava como ajudante
de ferreiro para o seu pai, João. Um dia ele precisou de lenha e não queria
cortar as árvores de troncos esguios e curtos que existiam aqui no vilarejo. Queria
as imensas árvores da Floresta das Cores que produziriam lenha suficiente para
alimentar uma fornalha durante dias. O amigo ainda tentou inutilmente
dissuadi-lo da ideia, afinal todos sabiam que as árvores da Floresta das Cores
jamais deveriam ser cortadas. — fez uma pausa e observou os olhares atentos das
crianças.
— Mesmo
assim Jeremias seguiu adiante e junto foi o seu insistente amigo. Não demorou
muito para encontrar uma árvore de tronco largo, com mais de trinta metros de
altura adequada a suas ambições. Logo ele ergueu o machado no ar mirando bem na
base da árvore, e vuf — as crianças arregalaram os olhos — desferiu o primeiro
golpe. E o segundo, seguido do terceiro e logo uma fenda surgiu na outrora
perfeita casca da árvore. Porém o que Jeremias não percebeu é que a cada
machadada, a floresta inteira tremia, e parecia urrar de dor em som assustador.
Porém, Jeremias não parou. O amigo gritou para que ele largasse o machado
instantes antes de correr desesperadamente para fora floresta. E deixou
Jeremias entregue à própria sorte. Só conseguiu olhar para trás quando teve
certeza que estava a uma distância segura. No entanto o que viu atormentaria
sua mente pelo resto de seus dias malditos. — fez uma pausa e fitou por
instantes a luz bruxuleante do fogo, enquanto as crianças esperavam
ansiosamente pelo desfecho da história.
— Quando o amigo olhou para trás viu pairar sobre Jeremias uma enorme sombra, e o pobre idiota parecia paralisado por algum encantamento, não conseguia se mexer e o chão todo estremeceu chacoalhando tudo ao redor. O amigo se jogou no chão, fechando os olhos e tapando as orelha. Quando olhou novamente, Jeremias havia desaparecido para sempre restando apenas o machado.
Ao fim da história, as crianças gritavam e corriam de volta para a segurança do colo dos pais, enquanto Tom, satisfeito com o medo desencadeado pela história, gargalhava enquanto o fogo dançava espalhando calor, sombras e luz por todo o acampamento. Somente João permanecia tranquilo sentando no mesmo lugar.
— Quando o amigo olhou para trás viu pairar sobre Jeremias uma enorme sombra, e o pobre idiota parecia paralisado por algum encantamento, não conseguia se mexer e o chão todo estremeceu chacoalhando tudo ao redor. O amigo se jogou no chão, fechando os olhos e tapando as orelha. Quando olhou novamente, Jeremias havia desaparecido para sempre restando apenas o machado.
Ao fim da história, as crianças gritavam e corriam de volta para a segurança do colo dos pais, enquanto Tom, satisfeito com o medo desencadeado pela história, gargalhava enquanto o fogo dançava espalhando calor, sombras e luz por todo o acampamento. Somente João permanecia tranquilo sentando no mesmo lugar.
— Você não sentiu medo, filho?— Não, senhor!— E por quê?— Porque foi o senhor quem inventou essa história só para assustar a gente.— Não, filho. A história é verdadeira.— Então cadê o tal amigo, do tal de Jeremias, hein? — disse João demandando saber sentindo que desmascararia o velho.— Está olhando para ele, filho! — disse Tom.
O velho arreganhou a boca cheia de espaços onde antes haviam dentes, e gargalhou com vontade. Naquele momento João decidiu que sentiria medo e correu para longe da fogueira e do velho Tom.
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